terça-feira, 17 de julho de 2012

Lunara

                         “Acho que parando bem embaixo dela (a lua) da pra laçar, não?!”
                                                                                       Antonio Carlos de Menezes



Não era uma paixão doentia dessas em que a gente não consegue fazer outra coisa senão pensar no ser amado, arrumar-se para ele, perfumar-se para ele, ir onde ele possa estar, fugir de onde ele possa estar; não conseguir comer, dormir, não querer nem se arrumar, nem tomar banho ou escovar os dentes se ele não estará lá para nos ver... Não, nada disso! Era um amor natural e sublime, belo com toda harmonia e encanto que só tem o que é natural e espontâneo o suficiente para ser verdadeiramente belo.
 Era assim que Johnnie amava e era correspondido. Toda noite depois de ter tomado seu banho para tirar de si o peso do dia de trabalho, de ter tranquilamente se alimentado, saía com a roupa e o cheiro de quem estava de bem consigo mesmo, pegava seu cavalo e corria veloz pelo campo, girava seu laço e pah! – laçava a lua, que então sorria e a terra inteira percebia seu brilho mais iluminado.
 Johnnie ia o mais para debaixo da lua possível e pela corda que usara de laço subia até ela, lá ficava horas, conversavam tranqüilos sem precisar se preocupar em organizar palavras, sem precisar forçar o pensamento, pois tudo fluía, não era preciso nem falar, pois a comunicação entre a lua e os seres humanos, como todos sabemos, é telepática.
Era assim o romance sublime de Johnnie e da lua, como os romances inocentes das crianças.
 De lá muitas vezes se punham os dois a fitar a terra, os campos... ao longe Johnnie mostrava para a lua sua casa, seu cavalo, seus parentes, sua árvore predileta, seus amigos.
Até que um dia quando os dois se divertiam a observar o comportamento das pessoas na fila do cinema Johnnie viu Lunara, o olhar dela era mais negro que a noite e mais brilhante que o luar, seu sorriso era um mar de estrelas e seu cabelo o próprio vento a voar e brincar vestido de cachoeira enluarada, a pele de Lunara era a terra, a terra a ser tocada, a ser sentida, descoberta, devorada.
Johnnie desceu a terra e desatinado tratou de  vestir-se com a melhor roupa que encontrou no comércio, experimentou toda loja de perfume e comprou uns vinte, cortou, hidratou o cabelo, fez a barba, comprou um carro e aprendeu umas poses de artista e umas palavras de “palestrante profissional da área da autoajuda”. Agora estava sempre preocupado em ser o mais bonito, o mais atraente, o mais inteligente, o mais interessante. Sempre procurando estar onde Lunara estivesse, um dia, como não poderia deixar de ser, se conheceram.
 Lunara deliciava-se com o ventinho suave tocando na sua pele, Johnnie preocupava-se com o cabelo se estava arrumado, Lunara estava feliz com a noite, Johnnie preocupado se a incomoda roupa estava bem aos olhos de Lunara, Lunara apreciava a música, Johnnie pensava no que dizer, Lunara achou Johnnie lindo, embora um tanto engomadinho, Johnnie estava certo de que era sua oportunidade e não poderia desperdiçar, Lunara queria conhecer Johnnie, conhecê-lo além da aparência, Johnnie a convidou para dar uma volta em seu carro importado e a levou aos lugares mais badalados da cidade, pagou a melhor comida, a melhor bebida, no outro dia mandou-lhe flores e um presente.
 Lunara ligou, agradeceu, mas nunca mais aceitou os convites de Johnnie para sair.
Johnnie por mais que pense não consegue entender o que aconteceu, ele tinha se esforçado tanto!
Lunara continua esperando alguém que sente com ela na grama e assim como ela converse com a lua e não se preocupe com nada, mas viva apenas,- viva com ela um romance tranqüilo e natural como os romances inocentes das crianças.

                                                                   Estela de Menezes. 07 de julho de 2012.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Histórias do louco. Parte I: O louco

O louco


Vagava por aí com um pequeno saco de trapo nas costas contendo ninguém sabe o que, não ia para parte alguma, não dormia, não acordava, não comia, não fazia nada sem trazer consigo, agarrado como a um valioso tesouro, aquele pequeno saco de trapo encardido.
Ele observava os pássaros voando, as vacas ruminando, as crianças brincando, os jacarés , os crocodilos, os pumas, os tigres, os leões, as focas, as primaveras,as margaridas, a fumaça dos fogões, das chaminés, dos carros,  os navios, as plantações, os humanos...
Tinha em si a tempestade e a calmaria. Andava, andava,andava... dormia, olhava... corria o mundo, andava.
Um dia resolveu parar e ver mais de perto como era a vida da maioria daquelas pessoas que costumava observar, pessoas comuns, “normais”.
Largou seu pequeno saco feito de trapo e em uma casa pediu roupas, conseguiu um banho em posto de combustíveis e um serviço de auxiliar de mecânico em uma cidadezinha de interior, aprendeu rápido, trabalhou naquela mesma oficina o tempo que levou para acabar seu ensino médio, que há muito tinha deixado nos primeiros dias de aula, do primeiro ano. Nas horas de folga lia muito, assim que acabou o ensino médio foi para a capital, entrou pro teatro e pra a faculdade de direito ( federal é claro), era excelente ator, e com o talento e sorte de poucos conseguia viver muito bem com o teatro, mas resolveu experimentar também o cinema  e a tv, ficou famoso.
Ele agora ao experimentar coisas, não só observava e sentia, mas lidava com elas e muitas vezes as dominava, sentia-se um Mago!
Conheceu uma cantora estrangeira e se apaixonou, ela era bonita e até que inteligente, casaram-se, ela engravidou, resolveram experimentar a vida em família, calma e morninha, mudaram-se para Curitiba, moravam em uma verdadeira mansão, em um lugar lindíssimo e luxuoso, tornou-se um dos mais importantes advogados da cidade e logo do país. Sentiu-se um Imperador!
Um dia, ouvindo Piazzolla, fumando seu cachimbo e olhando a noite se pôs a pensar no quanto estava acostumado com tudo e no quanto tudo que agora fazia era por habito e no quanto todo mundo a sua volta lhe tratava como lhe tratava por hábito ou até por dever. Espontaneidade e surpresa eram coisas cada vez mais raras ao seu redor – e em si!
 Desligou o som, largou o cachimbo, vestiu a pior roupa que encontrou na casa sem nem saber de quem era, pegou uma foto de sua esposa e sua filha, uma maço de cigarros, alguns incensos, um isqueiro um pequeno canivete e partiu.
 A esposa sentiu-se traída, a filha abandonada, os jornais, as emissoras de radio e televisão, os noticiários da internet, todos anunciavam que ex-ator famoso, um dos mais importantes advogados do país larga a família e desaparece, tendo sido  visto pela última vez  por vizinhos, saindo de casa  mal vestido e a pé, carregando um pequeno saco de trapo encardido contendo em seu interior  sabe-se lá o que, ele estava louco afirmavam, todos tinham certeza disso.
Ele, andou, andou, pegou carona, comprou bicicleta, vendeu, conseguiu serviços de tudo e mais um pouco por aqui e por ali, e continuou correndo o mundo. Depois de tanto andar, de tanto buscar, de tanto conseguir, de tanto perder, depois de saber como era se sentir triste, livre, errado, solitário, pleno, vazio... sentia que algo havia morrido dentro de si e que  só agora tinha consciência do que é estar vivo.

                                                                                                                  Estela de Menezes, 23/06/2012

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Cura

Cura
Minha desdita
Dita
Que a desgraça
Graça
E o desalento
Lento
Me corrompe
Rompe
Deste imundo
Mundo
Só o estrago trago
Só a loucura...

Estela de Menezes

Comentário

Tua solidão, sozinha,
Em teu peito vive só.
Tua solidão, sozinha
Vive só em ti e só.
Em meu peito, só, sozinha
Vive só minha solidão
Tua solidão e a minha
Só a sós – vivem sozinhas.

Estela de Menezes