quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

As Árvores


O ano em que viemos morar neste bairro foi o mesmo em que entrei pra escola. A escola fica bem pertinho de casa por isso no primeiro e no segundo ano, minha mãe, a Jú ou algum outro adulto que estivesse de bobeira na hora me levar ou trazer faziam o trajeto a pé comigo, saindo de casa logo atravessávamos uma avenida grande e movimentada, daí entrávamos em uma rua mágica.
Na primeira quadra tinha umas árvores altas que se distribuíam em fila pelas calçadas, dos dois lados da rua, uma de frente pra outra, eram árvores que podiam atingir o céu, mas não eram muito copadas, a Jú me explicou uma vez que podavam elas de forma que elas ficassem sempre assim, por isso elas jamais tocavam umas nas outras. Elas me davam a impressão de que eu poderia subir a rua se quisesse, não até a próxima quadra, mas até o céu.
Na quadra seguinte as árvores também eram dispostas assim em forma de alameda, mas suas raízes eram tão grandes que rompiam a calçada e elas encontravam-se, suas copas também se encontravam, a rua era mais sombria e úmida por isso, era cheia de pequenos insetos, canto de pássaros, se podia ver terra e pedrinhas próximo as árvores. Pra mim era, muitas vezes, a entrada de uma caverna misteriosa e infinita onde eu poderia desvendar o mundo todos os dias e para sempre, aquela rua me mostrava que ser criança é mágico e eterno.
No terceiro ano eu já podia ir sozinho com a Amanda. Como a vida era mágica!  A garota mais linda, mais incrível, valente e divertida do universo era minha colega e minha vizinha! De mãos dadas, ou trocando cócegas, pisões e empurrões, naquela rua, éramos plenos e éramos senhores do mundo, do céu, das águas, das florestas, das cavernas, das pirâmides, das montanhas, dos temporais e das calmarias...
Ah! As calmarias, quando cansávamos de correr e rodopiar nos jogávamos no chão e o céu girava no infinito enquanto sentimos  umidade da calçada no refrescar, num instante tudo era silencio e calma. Aquele lugar era todo mágico!
No quinto ano de escola as árvores da primeira quadra não foram podadas e também ficaram copadas, nem tanto quanto as da segunda quadra, mas o suficiente para que as copas de um par de árvores que pareciam buscar uma a outra, encontrassem-se, cada uma ficava de um lado diferente da rua, uma de frente para a outra, as últimas antes de entrar na segunda quadra. Eu nunca tinha observado antes que elas, mesmo de longe conversavam, mas agora elas estavam juntas e se beijavam e se abraçavam e sorriam e cantavam e dançavam e qualquer um podia ver isso e parece que todo mundo agora podia perceber a magia daquela rua! Todos que entravam ali, agora, eram também mágicos e tinham vidas mágicas e viviam livres, completos e aventureiros como eu e Amanda.
Este ano, logo que chegou o frio a prefeitura mandou podar as árvores, e este par de árvores não pode mais se abraçar. A rua ficou mais clara e aparentemente mais limpa, melhor, conforme os preceitos estranhos de uma gente que não sabe o que é viver.
Estávamos agora em uma clara e limpa cidade civilizada onde as duas árvores não podiam mais se abraçar.
Um dia ao passar por ali, bem quando atravessei a rua parece que ouvi a árvore da esquerda dizer: hoje um gentil e generoso temporal virá nos visitar...
À noite um temporal que parecia que tentava levar para o céu o que era do céu e tombar na terra o que era da terra veio nos visitar e dançou e cantou por horas sobre a cidade, eu não dormi, era importante ouvi-lo, como se deve ouvir os gênios e os sábios que vem de outros mundos nos visitar.
Na manhã seguinte quando fui pra escola, vi a árvore da esquerda caída por sobre a árvore da direita, apoiada em seus galhos, não sei se riam ou choravam, mas quis abraça-las, no entanto vi que era um momento só delas e me afastei, triste, em estado de luto me afastei.
A prefeitura mandou serras, caminhão, uma máquina com uma espécie de mão de gigante e homens de uniforme para retirarem a árvore. As outras permaneceram ali, de luto permaneceram. Poucos dia depois inexplicavelmente a árvore da direita secou como se tivesse sido incendiada pela própria seiva, como que por um fogo que viesse de algum lugar dentro de dela. Aquela rua era um imenso deserto, em todos os sentidos um deserto e por ali passavam agora tantas pessoas desertas...
Logo quando vi as duas árvores se abraçando e se beijando pela primeira vez entendi de onde brotava a magia daquele lugar, a Amanda também entendeu, mas quem mandou podar aquelas árvores ou já era deserto por dentro ou nunca tinha estado ali. Aquela rua era agora um deserto!
Hoje recebi uma carta da Amanda que há dois anos está com os pais nos Estados Unidos, na carta ela pergunta sobre o nosso lugar mágico, a caverna e as duas árvores que se beijavam e se abraçavam. Ela virá passar o natal e a virada do ano com família, mas antes disso terei que responder a carta...
Hoje não sou alegre nem triste, sou um garoto de quase catorze anos que ao pensar em como dar uma notícia triste a uma garota mágica (se é que ela ainda é mágica), pensa em si e em todos aqueles que ainda terão que descobrir que a vida acontece por caminhos que nem sempre são aqueles que acreditamos ou escolhemos ou amamos...
Apenas o garoto Júlio de quase catorze anos que a poucos anos atrás nesta época do ano estaria escrevendo sua cartinha para o papai Noel e hoje escreve para si mesmo por que é assim que conversa com sua própria solidão. Não! Isso não significa falta de amigos! Não! Quem não sabe ficar a sós com sua solidão não sabe ser ou ter amigos.
A magia e a solidão são as duas coisas que, cada uma a seu tempo, jamais podem faltar para um homem, pois só nestes momentos somos realmente quem somos, integralmente. Mostre-nos a solidão a plenitude ou o vazio ela nos traz para nós mesmos e nos acompanha em silencio como uma sábia e fiel amiga.
Faz meses que não ando por aquela rua que hoje é deserto, caminho mais, mas vou pra escola por outro caminho, pois sou apenas um garoto de quase catorze anos tentando não macular a lembrança de meu mundo mágico, tentando descobrir caminhos pra não deixar os desertos dos homens e dos mundos matarem a magia dentro de mim. Espero que em 1976 e por toda todo resto da vida eu e o mundo inteiro sejamos muito mais criança do que fui neste 75, onde descobri que  os homens constroem desertos e soterram a magia por acharem que isso é que é ser adulto.

(Estela de Menezes, em 05 e 06 de dezembro de 2012)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Pressentimento


“ Ao menos escrevem-se versos”*
Alguém escreve versos, certo.
Eu não escrevo nada.
Não desenho, não durmo...
Não expresso nada.
Não sei de nada, não expresso o que não sei
Sei que no fundo tudo é nada,
Sei que o que existe é o nada,
Mas não sei expressar, não posso...
E tem tanta coisa lá!...
Não expresso nada porque não sei de nada,
Nunca se sabe de nada porque não há nada pra se saber
Não expresso o que não sei,
 O que não sei se quero saber.
O que me tortura não saber.
O que me tortura vir a saber.
Saber... Nada!
No fundo tudo é nada.
Talvez seja isso que me tortura...
Não durmo...

Mil aranhas estiveram ontem em meu quarto.
Podem todos os oráculos não me dizerem o que de fato há,
 A movimentação oculta
Que virá definir minha vida nos próximos dias e meses
E talvez a própria vida...
Mas as aranhas...
Elas tem artimanhas poderosas demais, não mentem,
Não precisam mentir...
Elas eram muitas, umas magras, ágeis, astutas,
Outras eram fortes, negras enormes,
Senhoras de si, da indiferença, da crueldade,
Da hipocrisia e da covardia.
E a  última era  vermelha e cheia de veneno,
Nós a matamos, eu e ele,
Meu calçado rompeu sua teia cortante e perigosa
E destruímos sua bolsa de veneno separando-a do resto do corpo.
Suas patas esperneavam mesmo assim,
Ainda em sua loucura sem corpo,
Como se ela não soubesse que não tinha mais veneno,
Como se o veneno fosse sua vida!
E era pelo que vimos ali...
Não sei o que está acontecendo,
Não sei se algo está acontecendo,
Mas as aranhas nunca mentem!
Ah! Confiar em aranhas!...
O que está acontecendo?! Nada, talvez...
Mas talvez nada em movimento e isso é tanto...!
E hoje a dor foi clara.
Uma clara ilusão,- quem sabe? Tomara.
Tomara...
Mas não me venham dizer verdades, nem mentiras.
Nem tolices, nem sábios discursos, palavras...
Venha ele,
Apenas ele e me mostre a vida num beijo.
Venha o céu
E me deixem voar.
Amanhã... amanhã é outro dia!
Eu cumpro, amanhã, meu dever inútil
De vestir o uniforme/máscara de quem faz coisas
(não sei pra que, nem pra quem), coisas úteis, nobres, válidas e “de fundamento”
Eu até fico na História, amanhã, se quiserem...
Mas hoje,
Hoje me deixem voar.
 Deixem-me voar.
Ou não me deixem – porque o céu também é uma ilusão.
Não consigo e talvez não queira ler o nada que há em mim,
Por isso não expresso nada,
Não escrevo, não sonho,
Não sei de nada,
Não durmo...
Tem muita coisa neste(nesse) abismo
Que talvez esteja se preparando pra amanhã ser vulcão em erupção.
Não, não quero isso,
Quero ser mais forte.
Deixem de ser covardes e hipócritas!
Deixem-me voar.

Eu não sou uma de vocês.

Estela de Menezes, 4/12/2012, entre 4 e 4 e 34 da manhã.

*F. Pessoa

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Espelhos


Ele a via assim
Uma luz no centro da sala refletida na vidraça, que refletia na tela.
Cada vez que ele se movia pra outro lugar ela ia,
Ou outra então era ela,
Era ela, ela mesma! Mas outra forma tomava...
Da primeira vez que ele a viu parecia que lhe esperava,
Mas a cada passo que dava
Para outro ponto ela ia
Ou outra forma tomava.
Ziguezagueava o corpo,
Tornava-se mais esguia,
Ou mais anafada, achatada...
O que ela pretendia?

Era assim que ela via o mundo,
Por isso era assim que ele a via.
O mundo toma mil formas
Conforme a mente que o vê.

Ele fechava os olhos e então ela sumia,
Ou então, era aí que ela aparecia!
Mas quando ele a tocava, não tocava no que via,
Cada vez que se aproximava, outro lugar, outra forma,
Já não era a imagem primeira,
Já não era a mesma Lia!
E ele afinal quem era?
Quem era ela afinal?
Reflexos de reflexos?
Humanas sombras da noite desfeitas à luz do dia?
Imagens de onde vindas?
Dizem mesmo nossos olhos quando morre a realidade,
Quando nasce a fantasia?
A retina, o olho, o espelho, a luz, o dia...
A imagem fora do espelho,
As cores, as formas... as translúcidas luz e Lia
Mostravam-lhe seu existir, muitas vezes seus passos guiavam,
Era só... Era tudo que ele sabia.

Estela de Menezes, 1°/10/2012, à tarde.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Lunara

                         “Acho que parando bem embaixo dela (a lua) da pra laçar, não?!”
                                                                                       Antonio Carlos de Menezes



Não era uma paixão doentia dessas em que a gente não consegue fazer outra coisa senão pensar no ser amado, arrumar-se para ele, perfumar-se para ele, ir onde ele possa estar, fugir de onde ele possa estar; não conseguir comer, dormir, não querer nem se arrumar, nem tomar banho ou escovar os dentes se ele não estará lá para nos ver... Não, nada disso! Era um amor natural e sublime, belo com toda harmonia e encanto que só tem o que é natural e espontâneo o suficiente para ser verdadeiramente belo.
 Era assim que Johnnie amava e era correspondido. Toda noite depois de ter tomado seu banho para tirar de si o peso do dia de trabalho, de ter tranquilamente se alimentado, saía com a roupa e o cheiro de quem estava de bem consigo mesmo, pegava seu cavalo e corria veloz pelo campo, girava seu laço e pah! – laçava a lua, que então sorria e a terra inteira percebia seu brilho mais iluminado.
 Johnnie ia o mais para debaixo da lua possível e pela corda que usara de laço subia até ela, lá ficava horas, conversavam tranqüilos sem precisar se preocupar em organizar palavras, sem precisar forçar o pensamento, pois tudo fluía, não era preciso nem falar, pois a comunicação entre a lua e os seres humanos, como todos sabemos, é telepática.
Era assim o romance sublime de Johnnie e da lua, como os romances inocentes das crianças.
 De lá muitas vezes se punham os dois a fitar a terra, os campos... ao longe Johnnie mostrava para a lua sua casa, seu cavalo, seus parentes, sua árvore predileta, seus amigos.
Até que um dia quando os dois se divertiam a observar o comportamento das pessoas na fila do cinema Johnnie viu Lunara, o olhar dela era mais negro que a noite e mais brilhante que o luar, seu sorriso era um mar de estrelas e seu cabelo o próprio vento a voar e brincar vestido de cachoeira enluarada, a pele de Lunara era a terra, a terra a ser tocada, a ser sentida, descoberta, devorada.
Johnnie desceu a terra e desatinado tratou de  vestir-se com a melhor roupa que encontrou no comércio, experimentou toda loja de perfume e comprou uns vinte, cortou, hidratou o cabelo, fez a barba, comprou um carro e aprendeu umas poses de artista e umas palavras de “palestrante profissional da área da autoajuda”. Agora estava sempre preocupado em ser o mais bonito, o mais atraente, o mais inteligente, o mais interessante. Sempre procurando estar onde Lunara estivesse, um dia, como não poderia deixar de ser, se conheceram.
 Lunara deliciava-se com o ventinho suave tocando na sua pele, Johnnie preocupava-se com o cabelo se estava arrumado, Lunara estava feliz com a noite, Johnnie preocupado se a incomoda roupa estava bem aos olhos de Lunara, Lunara apreciava a música, Johnnie pensava no que dizer, Lunara achou Johnnie lindo, embora um tanto engomadinho, Johnnie estava certo de que era sua oportunidade e não poderia desperdiçar, Lunara queria conhecer Johnnie, conhecê-lo além da aparência, Johnnie a convidou para dar uma volta em seu carro importado e a levou aos lugares mais badalados da cidade, pagou a melhor comida, a melhor bebida, no outro dia mandou-lhe flores e um presente.
 Lunara ligou, agradeceu, mas nunca mais aceitou os convites de Johnnie para sair.
Johnnie por mais que pense não consegue entender o que aconteceu, ele tinha se esforçado tanto!
Lunara continua esperando alguém que sente com ela na grama e assim como ela converse com a lua e não se preocupe com nada, mas viva apenas,- viva com ela um romance tranqüilo e natural como os romances inocentes das crianças.

                                                                   Estela de Menezes. 07 de julho de 2012.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Histórias do louco. Parte I: O louco

O louco


Vagava por aí com um pequeno saco de trapo nas costas contendo ninguém sabe o que, não ia para parte alguma, não dormia, não acordava, não comia, não fazia nada sem trazer consigo, agarrado como a um valioso tesouro, aquele pequeno saco de trapo encardido.
Ele observava os pássaros voando, as vacas ruminando, as crianças brincando, os jacarés , os crocodilos, os pumas, os tigres, os leões, as focas, as primaveras,as margaridas, a fumaça dos fogões, das chaminés, dos carros,  os navios, as plantações, os humanos...
Tinha em si a tempestade e a calmaria. Andava, andava,andava... dormia, olhava... corria o mundo, andava.
Um dia resolveu parar e ver mais de perto como era a vida da maioria daquelas pessoas que costumava observar, pessoas comuns, “normais”.
Largou seu pequeno saco feito de trapo e em uma casa pediu roupas, conseguiu um banho em posto de combustíveis e um serviço de auxiliar de mecânico em uma cidadezinha de interior, aprendeu rápido, trabalhou naquela mesma oficina o tempo que levou para acabar seu ensino médio, que há muito tinha deixado nos primeiros dias de aula, do primeiro ano. Nas horas de folga lia muito, assim que acabou o ensino médio foi para a capital, entrou pro teatro e pra a faculdade de direito ( federal é claro), era excelente ator, e com o talento e sorte de poucos conseguia viver muito bem com o teatro, mas resolveu experimentar também o cinema  e a tv, ficou famoso.
Ele agora ao experimentar coisas, não só observava e sentia, mas lidava com elas e muitas vezes as dominava, sentia-se um Mago!
Conheceu uma cantora estrangeira e se apaixonou, ela era bonita e até que inteligente, casaram-se, ela engravidou, resolveram experimentar a vida em família, calma e morninha, mudaram-se para Curitiba, moravam em uma verdadeira mansão, em um lugar lindíssimo e luxuoso, tornou-se um dos mais importantes advogados da cidade e logo do país. Sentiu-se um Imperador!
Um dia, ouvindo Piazzolla, fumando seu cachimbo e olhando a noite se pôs a pensar no quanto estava acostumado com tudo e no quanto tudo que agora fazia era por habito e no quanto todo mundo a sua volta lhe tratava como lhe tratava por hábito ou até por dever. Espontaneidade e surpresa eram coisas cada vez mais raras ao seu redor – e em si!
 Desligou o som, largou o cachimbo, vestiu a pior roupa que encontrou na casa sem nem saber de quem era, pegou uma foto de sua esposa e sua filha, uma maço de cigarros, alguns incensos, um isqueiro um pequeno canivete e partiu.
 A esposa sentiu-se traída, a filha abandonada, os jornais, as emissoras de radio e televisão, os noticiários da internet, todos anunciavam que ex-ator famoso, um dos mais importantes advogados do país larga a família e desaparece, tendo sido  visto pela última vez  por vizinhos, saindo de casa  mal vestido e a pé, carregando um pequeno saco de trapo encardido contendo em seu interior  sabe-se lá o que, ele estava louco afirmavam, todos tinham certeza disso.
Ele, andou, andou, pegou carona, comprou bicicleta, vendeu, conseguiu serviços de tudo e mais um pouco por aqui e por ali, e continuou correndo o mundo. Depois de tanto andar, de tanto buscar, de tanto conseguir, de tanto perder, depois de saber como era se sentir triste, livre, errado, solitário, pleno, vazio... sentia que algo havia morrido dentro de si e que  só agora tinha consciência do que é estar vivo.

                                                                                                                  Estela de Menezes, 23/06/2012

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Cura

Cura
Minha desdita
Dita
Que a desgraça
Graça
E o desalento
Lento
Me corrompe
Rompe
Deste imundo
Mundo
Só o estrago trago
Só a loucura...

Estela de Menezes

Comentário

Tua solidão, sozinha,
Em teu peito vive só.
Tua solidão, sozinha
Vive só em ti e só.
Em meu peito, só, sozinha
Vive só minha solidão
Tua solidão e a minha
Só a sós – vivem sozinhas.

Estela de Menezes

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O Mais Belo do Mundo

   “A borboleta pousou na minha perna e um cara disse: a tua energia é boa mesmo, porque isso é o que significa uma borboleta pousar em alguém. Ela então caiu morta! E eu disse: Sério mesmo?! É melhor dizer outra vez.”

                                                                                                               (Thiago Nelsis)



Nunca quis ser Afrodite ou Palas Atena, nem qualquer outra deusa, elas são tão problemáticas!
Um dia vim passear nesse mundo onde tu estás agora e decidi ser mulher, humana mesmo, foi aí que depois de muito andar, conhecer, aproveitar... vi o mais belo do mundo! E ele nem olhou pra mim.
Ali naquela noite linda, naquela taverna cheia de dores e alegrias, a sentir a intensidade da vida, ao som das castanholas e o trinar de um violão, me senti tão feia, tão diminuta, tão indigna de existir. Era como se aquela espanhola bela e ágil mandasse do palco até mim uma duplicação de si para sapatear sobre mim, aterrando-me em meu próprio desvalor. 
O duplo de seu corpo era muito mais forte que ela própria e possuía toda a raiva do mundo, coisa que ela própria (que nem me tinha visto ali) não possuía. O vestido deste duplo não era vermelho e inspirador como o da dançarina no palco, mas pardo e liso como o fim de um sonho (foi, aliás, ali que descobri o que era sonhar). 
Senti-me tão, mas tão diminuta que me tornei uma feia lagarta, andava triste, indiferente ao sol e à chuva, sem sentir o sabor das plantas, sem valorizar a maciez da terra úmida... Ainda que no mundo das lagartas eu não fosse considerada tão insignificante e feia. Eu era triste... 
Mas aos poucos fui aprendendo mais coisas sobre a alma e o mundo e um dia, sem nem entender bem o porquê, me senti mais forte, olhei outra vez com coragem para o mundo fora de mim. Foi aí que vi novamente – o mais belo do mundo! E ele nem me viu.
Mas também, se ele me visse, que acharia de mim, uma simples lagarta?! Envolvi-me em um casulo, - o meu casulo -, e lá fiquei. O tempo passou. Até que um dia percebi que aquele casulo não era mais meu, que eu não era mais aquela rastejante e lenta lagarta... Foi aí que mais uma vez vi o mais belo do mundo!
Fiquei tão feliz em vê-lo, tão extasiada, sem nem pensar em mim, no quanto agora eu era leve, encantadora e bela. Aproximei-me dele, pousei em sua perna... neste exato momento um sábio amigo seu comenta que eu deveria ter pousado ali por causa de sua boa energia, e então ele me olhou. Olhou-me! E eu transcendi. 
Hoje, daqui de onde estou, muitas vezes a admirá-lo, desejo ir até ele e beijar-lhe, pousar um beijo sublime em seus lábios feitos de fascínio e encanto. Gostaria que um beijo meu pudesse oferecer-lhe toda a magia e êxtase que experimento ao vê-lo. 
Mas ele, ainda hoje, acha que morri em sua perna por não ser boa a sua energia. Ao ver isso, sempre experimento a ternura de uma lágrima triste a correr em meu rosto, e sorrio – por que ele existe.

Estela de Menezes, 26/06/2012

terça-feira, 26 de junho de 2012

Um Minuto

                                                                                    
“Silêncio belo que se instala
entre uma e outra vinda da incessante vida
que cobra sempre presença e convívio.
Quanta paz eu encontro
em não fazer nenhum sentido e
quem sabe
não ter nem identidade neste mundo.”
                              (Thiago Nelsis)



Gosto da calma dos campos em dias amenos,

do vento suave nos eucaliptos e nos ciprestes que cantam
sem obrigar ninguém a ouvi-los.
Gosto do passeio das formigas, que nem se ocupam em perceber minha presença, dos gravetos no pasto claro, da vaca, da ovelha,
do ninho do quero-quero quando o quero-quero está calmo,
da água fresca, do céu distante, distante... com uma nuvenzinha silenciosa e distraída.
Gosto de tudo que está lá e simplesmente está lá, nada mais,  permitindo assim o estar alheio sem indagações ou leis ou "formas corretas de se estar"
E gosto da cidade assim como está agora, como nela estou agora.
Enquanto os humanos em suas prisões sustentam a civilização,
ando pelas ruas onde os sons estão, mas não ferem o silêncio. Pelas ruas banhadas de uma luz suave, de um calor macio, por um sol tranquilo.
 Ando em passos despreocupados, sem os gritos dos apelos humanos (e dos meus próprios apelos).
É bom andar pelas ruas, onde meus pensamentos não mofam, não se emboloram em tramas neuróticas e viciadas,
onde a selvageria histérica conversiva e dissociativa do mundo sociabilizado (e confesso, muitas vezes minha) não invade a minha mente,
onde não me perturbo com minha própria loucura de achar que sei algo sobre mim ou os outros.
Ando no ritmo leve de minha solidão,
tentando estar desacompanhada até mesmo de mim mesma,
ando com passos despreocupados que parecem  um distraído embalar de rede
no sem fim de uma noite de sossego e descanso.
E me leva, meu andar, me leva...
Um minuto na leveza de assim
andar e assim me sinto: a andar mais leve.

Estela de Menezes

domingo, 24 de junho de 2012

Rosa

Rosa vivia plantada, apoiada no muro, bem perto do portão da frente da casa de dona Sofia. Liliana, a menininha da casa, brincava, corria, vivia como todas as outras meninas da rua e do bairro. Também como todas as outras meninas, na idade de ir à escola, Liliana ia à escola, estudava, não estudava, sorria, chorava, teve amores, namorados, fez viagens, foi a festas.
Rosa, a que quase ninguém via, vivia plantada, apoiada no muro de dona Sofia. Liliana, assim como tantas meninas, casou, teve filhos, continuou indo a festas, viajando, sorrindo, chorando. Outras meninas fizeram carreira, ficaram famosas, morreram de câncer... Rosa vivia plantada ao lado do portão apoiada no muro.
Tantas meninas nasceram, cresceram e tantas vezes na vida viveram e morreram!
Rosa vivia plantada, perto do portão,  apoiada no muro da frente da casa de dona Sofia, uma rosa que quase ninguém via, que com o tempo recebeu suas manchas, teve sua maciez comprometida, murchou, sem nunca perder seu perfume que tornava tão mais leve o ambiente e que agradava a tanta gente que nem percebia de onde vinha toda aquela suavidade que pairava no ar, era uma rosa que quase ninguém via. Um dia despetalou-se como uma nuvem cinza  chorando gotas de arco-íris, enfeitou a terra onde viveu plantada, tombou já sem vida em uma queda que ninguém viu, nem ouviu, ou viu e ouviu, mas não achou valor em comentar.
Rosa foi varrida de onde passou sua vida e depositada em meio a tantas outras rosas e não rosas que vivem ou não, mas morrem, como todos sempre morrem, são varridos e geralmente em algum lugar depositados, e como a grande maioria dos seres que vivem (ou não) e morrem, rosa sumiu da história do mundo como se nunca tivesse passado por lá.


Estela de Menezes.

Maria e as Estrelas e Suicida

Maria e as Estrelas


Maria queria tanto as estrelas do céu,
Queria tanto que atravessou o deserto,
escalou montanhas, se afogou no mar,
explodiu cidades.
Queria tanto tocá-las sem precisar esconder
seu fascínio,
contempla-las em silêncio e êxtase, com calma,
queria respira-las...
dissipar-se no ar, fundir-se nelas.
Queria tanto que quando as teve diante de si
fechou os olhos,
perdeu a força nas mãos, nas pernas...
Adormeceu sem nem acreditar
que não era só delírio de desejo,
mas reciprocidade de energia e vida.
Queria tanto!...
e quando acordou viu o sol,
o dia claro e a realidade de concreto e rotinas.
A realidade vazia e a luz do dia
deixando claro que Maria
não tinha aprendido a merecer e agarrar estrelas.
Agora ela só via um sol infindo a escurecer sua alma.
Mas a noite ainda há de voltar, Maria. Há de voltar, algum dia.


Estela de Menezes





Suicida



                                “Queria ao menos ser amiga dele, a melhor amiga dele, alguém que ele soubesse que sempre pode contar, que vai sempre estar ao lado dele.”
                                                                                                                    J. Pouey

                              “ O nome dela estava no sub do msn dele, entre dois coraçõezinhos...”
                                                                                                                         J.P.

 “Não é uma questão de não gostar mais da vida e querer morrer, é bem diferente! A morte é como uma dança. É uma música que vem no ar, sedutora, que te envolve e te tira pra dançar e te envolve mais ainda, e te leva, e tudo que tu quer é te deixar levar... Pra esse mundo que te exige sempre um motivo pra tudo, acha-se um motivo para dar de desculpa ao mundo, na verdade, para se deixar levar...”
                                                                                                                            S.R.




                    Naquela manhã a chuva tinha parado após três dias e noites quase sem tréguas. Há muito que ela só dormia, de quando em quando acordava, ouvia a chuva, dormia. Não via por que acordar, seu corpo inteiro doía, não suportava mais sonhar.

                  Naquela manhã veio o sol, tudo ainda estava úmido e ela saiu a andar. A calça preta, os tênis mal cuidados, camiseta, pele sem nenhuma cor, os lábios secos e sem vida, olheiras...  Mas ela sorria quando sentia o ar tocar em seu corpo, entrar pelos seus pulmões. Quem poderia saber o quanto seu peito doía, e que cansaço e apatia arrastava pelas ruas?

                 Sentou-se à beira do rio sobre uma pedra, olhava distante, parecia observar as águas de Libres, as árvores talvez. Podiam-se ver agora lágrimas umedecendo seus olhos, sem escorrer. Olhar fixo e distante – ficou ali sentada  por horas, depois se virou, olhou a ponte, caminhou pela beira do rio. Como seu corpo doía! E o peito parecia ser afundado por um punho de ferro.

                Voltou para o centro, andou pelas ruas, sentou-se no café de sempre à mesma mesa, e como tantas vezes o pensamento, assim como o existir, desafinado e desarmônico, o desejo nada saudável de um passeio pelas redes sociais, a foto dele no perfil... Tão lindo! Um sonho!

               Queria tanto ouvir sua voz.  Queria tanto um oi, como estás?

               Queria ser sua amiga, sua melhor amiga... queria chorar.

              Sorrindo pagou o café e se despediu do rapaz que sempre a atende tão gentilmente, sem jamais esquecer seu nome, nem de perguntar: tudo bem?

               Caminhou mais e mais, observou cenas que dariam boas fotos, mas hoje nem isso  queria fazer.  Andando pensava na menina linda para quem ele deixara lindas mensagens. Tão linda, tão linda! 
             
Voltou para o rio, tinha câimbras, não queria voltar pra casa, não queria dormir... queria acordar.  Como será se afogar? – pensou. 

               Virou-se, voltou-se para a rua e aos poucos foi se afastando do rio, já nem sentia mais o corpo, só o cansaço, o cansaço do querer, do sonhar...

              Deve haver um veneno que nos faça dormir com leveza, parar de pensar...  tantas vezes havia pensado nisso: um copo de vinho que embriague para sempre, sem jamais causar mal-estar.

               Tantas vezes enxergou um revólver contra sua cabeça, bem em sua têmpora esquerda. Mas não... isso não.

               Agora parecia a felicidade a andar pelas ruas, seus olhos brilhavam, seu sorriso se abriu e ela subiu os ombros e apertou os braços ao redor do corpo como quem sente um abraço de quem está, mas não se deixa ver. Imaginou-se andando ao lado dele a conversar, estavam tranquilos, estavam contentes...

               Uma luz tão forte, o soco de uma mão gigante, um gosto de sangue... o escuro, o corpo queimando no asfalto... o carro parou.

               Ela o tinha diante de si: o cordão no pescoço, os lábios como em uma tela, os olhos que guardam segredos que nem nesse momento se deixavam revelar...  Ela finalmente deixou correr as lágrimas dos olhos, seus lábios sorriam... e adormeceu no asfalto banhado de sangue.

               Logo a multidão invadiu o local, ouviam-se sirenes e vozes. 

               E ele naquele dia, nem sequer passou naquela rua. Naquele dia nem sequer pensou nela. Mas sua ausência, coisa que ela sempre teve certeza que assim como sua presença nem seria notada nesse mundo, todos que a conheciam, inclusive ele. Atribuem a um acidente de trânsito, estúpido e cotidiano. 

                                                                                                         Estela de Menezes. Outubro de 2011.


Meu Amigo Escuro e o Companheiro Medo e outros antigos

Quando eu era pequena,
não gostava do escuro, tinha medo.
Ao deitar, pensava no que tinha feito durante o dia,
e esperava ansiosa um outro dia,
para fazer o que ainda não tinha pensado.
Quando, sorrateiramente,chegava o escuro,
eu ficava imóvel, paralisada de medo.
Pois ele, o escuro, era traiçoeiro e astuto.
Sempre misterioso e calado,
jamais explicava se me escondia do mundo
ou se escondia o mundo de mim.
Só sei que meus pais, minha irmã,
meus brinquedos e minha casa, desapareciam.
A luz fugia, acho que também tinha medo.
Agora eu estava sozinha, assustada com tal solidão
Quanta coisa poderia me acontecer... não sabia.
O medo de sentir medo era o maior, pois era amigo do escuro.
Hoje, quando eu apago a luz para dormir,
lembro de ter esperado durante horas e horas
a hora de encontrar o escuro
Se estou feliz, posso sonhar e sorrir tranquila
e quando estou triste, posso refletir em paz.
Em qualquer ocasião
o escuro me abraça tão forte
que me protege de quase tudo o que eu não gosto,
e eu brinco com meus medos, no entanto,
não temo um amanhecer aterrorizante,
pois o medo é um dos muitos ângulos do prazer,
o mais emocionante, enigmático e surpreendente.


Estela de Menezes,1994.





Cavalheiro


Ai... Como é lindo o meu amor!
Ah! Mas sabes a razão desta lágrima?
Minha alma pertence a um tal senhor
E a alma desse amor me é negada.

Ah! Como é doce, meigo, puro!...
Se me nega a vida essa força, essa brandura...
Não me queixo. Se vivo é por tal ventura:
Que aproxime Deus teu destino de meu futuro.

Ah! Quem me dera o sonho maior: secar o pranto que esvai
E gozar de teu calor que abranda toda amargura.
Dá-me Deus a graça de um sorriso, – essa Ternura.
Ah! Mas, meu amor – como é lindo! Ai!


Estela de Menezes


No Inverno


Entardece,
Noite desce,
Garota cresce,
Garoa cai.
 
Entardece,
Um fogo aquece
E a moça
A garota esquece
A escada desce 
E do quarto sai.

Entardece,
Garoa aquece,
O mundo cresce
E a moça parece
Que num sonho
Mergulha, cai...

Entardece,
Para seus braços 
A moça desce,
Do mundo esquece,
Um fogo cresce,
E num sonho mergulha, cai.


Estela de Menezes

O Meu Amor


Meu amor que ama amar
Ama amar o meu amor.
Tudo que ama o amor amar,
Ama amar no meu amor.
Ama o rosto, o jeito, a voz,
Tudo em ti – o meu amor.


 Estela de Menezes

Porto Alegre


Saudade
Saudade senti
Saudade senti daqui
Das ruas, calçadas, praças
Do sol
Do sol e da chuva
Do sol da chuva e de ti
De ti
De ti e de tudo
De ti e de tudo daqui. 


Estela de Menezes